quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mães morrem quando querem...



“Mães morrem quando querem…”
Eu tinha 7 anos quando matei minha mãe pela primeira vez. Eu não a queria junto a mim quando chegasse à escola em meu 1º dia de aula. Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios que a nova vida iria me trazer. Poucas semanas depois descobri aliviado que ela ainda estava lá, pronta para me defender não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam, como das dificuldades intransponíveis da tabuada.

Quando fiz 14 anos eu a matei novamente. Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos vôos juvenis. Mas logo no primeiro porre eu felizmente a descobri rediviva – foi quando ela não só me curou da ressaca, como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.
Aos 18 anos achei que mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressurreição. Entrara na faculdade, iria morar em república, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese. Ledo engano: quando me descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.
Aos 23 anos me dei conta de que a morte materna era possível, apenas requeria lentidão… Foi quando me casei, finquei bandeira de independência e segui viagem. Mas bastou nascer a primeira filha para descobrir que o bicho “mãe” se transformara num espécime ainda mais vigoroso chamado “avó”. Para quem ainda não viveu a experiência, avó é mãe em dose dupla…
Apesar de tudo continuei acreditando na tese da morte lenta e demorada, e aos poucos fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela reaparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar… Mas o final dessa história, ao contrário do que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando menos se esperava, ela decidiu morrer. Assim, sem mais, nem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida.
Ela simplesmente se foi, deixando a lição que mães são para sempre. Ao contrário do que sempre imaginei, são elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida, e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade…
Escrevi essa crônica em 11 de março de 2008, um dia após a morte de Ignês Pelegi de Abreu, minha mãe. Naquela época eu não tive condições de ler o texto no ar, no que fui socorrido pelo meu amigo Irineu Toledo. Hoje, um ano após sua morte, repito essa crônica em homenagem não só a ela, como a todas as mães que habitam o céu.
Alexandre Pelegi

5 comentários:

Diza disse...

Lindo texto, fiquei muito emocionada durante a leitura. Não moro com minha mãe e sim com meu pai, mas mesmo pela distância ela pergunta se está tudo bem e se eu estou precisando de algo, pois para ela eu nunca vou deixar de ser a sua criança, acredito que todas as mães do mundo são assim também, pois ainda quem não é mãe, vai sentir na pele o que é ser mãe um dia.

Lucia Costa Siqueira disse...

Amiga!!!!que texto,perdi minha mãe a pouco tempo,ainda estou a chorar(saudades)então pra mim este texto,mexeu mais comigo.Mas é a vida,todos um dia vcms perder.
bjosssss

Anônimo disse...

Linda e emocionante crônica! Me emocionei muito...
Que Deus te abençoe sempre.
Tenha um excelente dia!

dina disse...

nao gostei adorei muito e lindo e e verdade sou mae e me revejo neste poema gostaria de pedir permiçao para o dar a ler ao meu filho obrigada

Abelhinha Feliz disse...

Nossa!!! Mexe profundamente... sem palavras.